Qorpo Santo e a presidenta

olha, eu estou criando um negócio a partir da obra do Qorpo Santo. isso quer dizer que é necessário, e muito, pensar em língua portuguesa. QS previu uma série de ajustes pra língua que só viriam a ser formalizados muito mais tarde, como a substituição do ph por f. outras coisas ainda são discutidas, para deixar a língua escrita mais próxima da língua falada.

eu vi um post no facebook do Rodrigo Lemos ontem que teve mais de 100 comentários do pessoal discutindo o uso da palavra presidenta. a discussão foi tanto de política quanto lingüística (olha o que o corretor automático fez, colocou trema aí na linguística). aí tinha uma conversa de falar só sobre o português e não sobre política. não é fácil isso, brother (e eu aqui cometi uma perversão, usando um termo em inglês). se eu escrever com d e acento melhora? não é fácil isso porque linguagem é comunicação e comunicação é política, bróder. além do mais, esta é a primeira vez que o termo é de fato posto em uso. então não tem como desvencilhar uma coisa da outra. se alguém postar a palavra presidenta você, imediatamente, saberá de quem se fala.

se eu acho a palavra bonita ou feia não faz a menor diferença. aprendi lá nos comentários do post do Lemos que a tal palavra existe há mais de cem anos. e seria usada para designar exatamente o que designa. mas mais de cem anos depois é a primeira vez que podemos usá-la.

voltando a Qorpo Santo, que escreveu sua obra mais ou menos na mesma época em que a palavra presidenta foi inventada. toda a nova reforma de aproximação da linguagem oral com a escrita parece saída de sua mente. acabar com letras desnecessárias nas palavras, como o h em homem. QS já achava legal e necessário. necessidade de democratização da língua. e não me venham com nivelar por baixo. quando Guimarães Rosa faz um estudo profundo de oralidade e escreve assim é a glória, mas agora quando de fato falam daquele modo é um horror. e o mesmo vale para outros tantos escritores brilhantes.

será que esse negócio de promover a língua culta, erudita, não é também uma espécie de segregacionismo? o importante não é deixar claro aquilo que é pensado? bom, se assim for, o termo presidenta é perfeito, ninguém tem a menor dúvida de qual é a discussão, sobre quem se fala e podemos mesmo saber o posicionamento político do sujeito pelo uso.

mais sobre este tema, com ou sem presidenta no cargo maior do executivo deste país, em breve. o trabalho com QS acaba de se iniciar.

PS: tenho mais meia hora de conversa a partir de um ponto de vista mais fosterwallaciano de linguagem e uso, mas deixemos isso para um próximo momento.

PPS: agora me veio também à cabeça a obra do cummings. tem mais conversa sobre tudo isso aí no horizonte. e o assunto é extenso.

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2 thoughts on “Qorpo Santo e a presidenta

  1. Eu estive interessado apenas em discutir o entendimento, Ninoca… Nós só estamos reconhecendo a validade deste termo recentemente, em virtude da presidência estar sendo exercida por uma brasileira. É a primeira vez. É a primeira vez também que o termo vem à tona de forma expressiva, apesar de ter sido legitimado há mais de um século (mediante sabe-se lá que parâmetro senão o da negligência com o ato de presidir, suponho). Postei lá, sem ingenuidade, mas seguro de que não estava a diminuir a Dilma. Muitos que ali comentaram, são cegos para a questão que expus ou têm uma omissão conveniente hoje. 2014. O fato é que escrevi a partir da minha relação racional com o Português, que, ainda bem, sinto ser menor que minha emoção para compor e cantar. Tenho certeza que você também nutre paixões de diferentes níveis entre a palavra estudada e a palavra sob o filtro da arte. É da minha natureza cair de cabeça em qualquer brincadeira, qualquer ausência de sentido, qualquer deturpação, qualquer “erro”. Sou uma porra dum palhaço na intimidadem afinal rsss Mas também é bem da minha natureza artística o questionar… Então não quis arredar pé e voltar atrás… Quero mesmo saber: até onde as pessoas sabem se estão cometendo acertos ou erros com o próprio idioma? Isso que delimita, creio eu, a segregação à qual você se refere. Não a nossa aceitação individual de um único vocábulo – fato irrelevante para a Língua. Há N razões para existirem diferentes níveis de domínio da Língua (oportunidade de acesso, interesse, determinação e capacidade de assimilação devem ser algumas) e isso não vai mudar drasticamente pois somos dotados de diferentes faculdades mesmo. Entendo, por exemplo, que quando grafamos Qorpo, sabemos que é uma apropriação com o intuito de provocação artística; e espera-se que isso seja compreendido nesse âmbito. O da subjetividade. Mas há garantia de que todos assim entenderão? É certo que, neste caso, estamos tratando de grafia (como no caso do “ph” substituído por “f”). Mas e se resolvêssemos conferir o gênero do sujeito, dono do corpo, à palavra? “O Lemos tem um baita corpo (mentira; reconheça a piada), mas prefiro a corpa dela”. O “fator presidenta Dilma” é algo pop, viral; tem maior cativação pela representatividade, suponho, do que pela coerência do ato de presidir. Você tem ciência do verbo “presidir”. Eu também. Mas, algo me diz que a maioria arrebatadora dos brasileiros (com qualquer inclinação política, ou ainda uma maioria despolitizada) conhece mais a presidente que a própria língua. Assim como o papa é pop, ou como os Beatles se proclamaram ironicamente em algum momento “maiores que Jesus”… São apropriações e deveriam ser entendidas como tal. A palavra presidenta é uma graça, e altamenta influenta no momento. Que façamos dessa conquista para a mulher (a da presidência) uma coisa mais notória que a própria Língua Portuguesa. E sigo a desejar apenas um país mais calmo e que possa se tornar melhor entendedor… “Erudito”, além de chato, é esperar demais da nossa educação, mesmo no plano da utopia.

    Paz do Qorpo Santo ❤

    • Ro, foi um dos melhores posts que li no facebook nos últimos tempos. São coisas que andam rondando e que eu vi ali no seu posto e nos comentários, de certo modo e com o perdão do trocadilho, corporificadas. Sabe que existe umn plano de adequação da língua, de modo a aproximar cada vez mais a oralidade da palavra escrita, de maneiros que tudo que tem som de “s”seria escrito com um s apenas, como tudo que tem som de “x”seria escrito com x e não mais com ch e assim por diante. Mas quando você lê uma parada sobre isso e vai dar uma olhada nos comentários é de uma tristeza sem fim, aí sim você encontra a segregação pela língua. Pessoas dizendo em caixa alta que isso seria ridículo e injusto, já que eu estudei o português e sei falar e agora vão nivelar por baixo. Esse obviamente um dos comentários mais polidos.

      Aí veio a mistureira. Entre a proposta de reforma, o estudo de Qorpo Santo e o teu post no facebook, tudo virou uma coisa só na minha cabeça. Eu não acho que a propaganda da erudição e do segreagacionismo está no seu post. Acho que está em tudo, em todos nós. Eu às vezes me retorço ao ver as coisas escritas no modo internet, com vc no lugar de você e h no lugar de acento agudo. É um exercício diário não julgar a forma, mas sim o uso e a comunicação. Eu tinha lá as minhas dúvidas com a palavra que gerou tudo isso. Também aprendi na escola que o certo é presidente, mas também li uma tradução de As Relações Perigosas, do Chordelos de Laclos, em que um dos principais personagens é justamente a “Presidenta de Tourvel”. Aí já não sei se é problema de tradução ou se é isso mesmo, mas o fato é que a palavra, por causa desse livro que eu amava na minha adolescência pré-Dilma, nunca me soou estranha quando começou a ser usada e disseminada. Concordo quando você diz que as pessoas conhecem mais a presidenta (vou me permitir os uso, tanto pela correção quanto pela revelação de minhas inclinações) do que a língua. Por isso mesmo é que também é necessário reformar a língua. Democratiza-la.

      A discussão é sempre proveitosa. E sempre linda. O que eu acho ruim são as pessoas que se recusam firmemente a acatar o termo trazido à tona pela Dilma, mas de maneira a caçoar dele, colocando entre aspas, como se fosse um erro crasso. Que é diferente da recusa da grande mídia de abraçar o termo, algo que revela uma posição política, mas de outro jeito. A recusa da grande mídia (com raras exceções) ajuda a reforçar o preconceito ao termo. Coisa que eu vi provada lá no seu post no facebook. Adorei tudo aquilo, todas as opiniões, as pessoas postando links e mais links. Tentei ler tudo com a cabeça bem aberta. Mas ainda não consigo pensar que se prender a um termo, seja ele qual for, com ou sem conotação política, é muito difícil. A língua é um organismo vivo. O corretor não reconhece a palavra links aí acima, mas tenho certeza que daqui a pouco a palavra linkar também estará nos nossos dicionários, se é que já não está. Para dar conta de todas as manifestações, devemos aceitar que a língua é mutável. E devemos aceitar as várias línguas deste país. E mais, respeita-las.

      No mais, eu acho mesmo que as duas formas estão corretas e que devemos utilizar a que nos melhor aprouver. Mas confesso, pessoas que escrevem presidenta me revelam muito mais rápido quem são e quais sua posições. Na arte da comunicação continuo pensando que assim ela soa melhor, carrega mais sentidos em um significado.

      To adorando a conversa.
      Beijo na alma que o qorpo é santo (péssimo isso, eu sei)

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