a arte de tudo quebrar e nada endireitar

tem uma coisa muito legal em fazer uma peça para o público finalmente. depois de mais de três meses em sala de ensaio. a reação, o feedback.

neste sentido acredito que as críticas negativas sejam muito importantes pra continuação da atividade criadora. obviamente é bom ouvir adjetivos como corajoso, bonito, muito bom. coisas que ouvi de várias pessoas nas quatro apresentações do Festival. eu ainda não tive oportunidade de ouvir muitas críticas negativas construtivas. apenas um ou outra.

uma coisa que percebo sobre o espetáculo AMANHÃ SOU OUTRO depois de tê-lo entendido num palco com audiência (ainda que pequena) é que o trabalho do ator é o eixo principal de significação. o resto é complemento. e justamente por isso, e por opções estéticas e de construção da peça, se o ator não consegue dominar sua energia, elevar a potência a cada fragmento, construir toda a ideia da peça com o mais elevado tônus muscular, o espetáculo simplesmente não acontece.

uma das opiniões que ouvi foi justamente a de que a peça é linear demais no quesito energia. nada acontece além. eu poderia dar milhares de justificativas pra isso. mas a verdade é que esta visão é de verdade. sem a presença do ator em sua potência máxima a peça é só chata, um monte de coisa grudada na outra sem sentido algum.

a opção central da encenação é colar uma cena na outra, sem preocupação com as intersecções. uma cena transmigra em outra que transmigra em outra e assim por diante até o final. é uma ideia que parte de pensamentos do próprio Qorpo Santo. seja em sua peças, seja em sua vida. QS acreditava que almas podem transmigrar de corpos em vida. deste modo, ele próprio teria sido conselheiro de Napoleão durante sua existência neste globo de argila. sua dramaturgia é um reflexo disso. peças começam de um jeito, tratando de um tema, para, em seguida, transmigrarem absolutamente para outra coisa. personagens transmigram. C-s vira Radinguínio. Impertinente vira Malherbe. e assim por diante.

a peça é exatamente isso. cenas que transmigram. e dependem inteiramente do ator para que possam, de fato, se destacar e transmigrar. senão a peça dá a impressão de ser uma coisa só até a metade e outra da metade pro fim. mas com o mesmo gasto energético para tudo. quando na verdade nenhuma cena está ligada à outra.

o risco disso tudo é que o público pode simplesmente ler a peça como um amontoado de cenas sem pé nem cabeça. mas ainda assim é um risco muito interessante. porque nos dias em que tudo encontra sua potência máxima, todos os elementos apoiando o trabalho do ator, todas as cenas são exatamente a mesma cena. relida diversas vezes de vários ângulos, em várias épocas.

o que eu quero dizer com isso tudo é que se você odiou a peça, se você ficou indiferente, se você achou chata ou qualquer coisa do gênero… me conta. não tem brincadeira de ego aqui. eu acho que a construção acontece pela via crítica. nenhuma opinião jamais será descartada.

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Qorpo Santo e a presidenta

olha, eu estou criando um negócio a partir da obra do Qorpo Santo. isso quer dizer que é necessário, e muito, pensar em língua portuguesa. QS previu uma série de ajustes pra língua que só viriam a ser formalizados muito mais tarde, como a substituição do ph por f. outras coisas ainda são discutidas, para deixar a língua escrita mais próxima da língua falada.

eu vi um post no facebook do Rodrigo Lemos ontem que teve mais de 100 comentários do pessoal discutindo o uso da palavra presidenta. a discussão foi tanto de política quanto lingüística (olha o que o corretor automático fez, colocou trema aí na linguística). aí tinha uma conversa de falar só sobre o português e não sobre política. não é fácil isso, brother (e eu aqui cometi uma perversão, usando um termo em inglês). se eu escrever com d e acento melhora? não é fácil isso porque linguagem é comunicação e comunicação é política, bróder. além do mais, esta é a primeira vez que o termo é de fato posto em uso. então não tem como desvencilhar uma coisa da outra. se alguém postar a palavra presidenta você, imediatamente, saberá de quem se fala.

se eu acho a palavra bonita ou feia não faz a menor diferença. aprendi lá nos comentários do post do Lemos que a tal palavra existe há mais de cem anos. e seria usada para designar exatamente o que designa. mas mais de cem anos depois é a primeira vez que podemos usá-la.

voltando a Qorpo Santo, que escreveu sua obra mais ou menos na mesma época em que a palavra presidenta foi inventada. toda a nova reforma de aproximação da linguagem oral com a escrita parece saída de sua mente. acabar com letras desnecessárias nas palavras, como o h em homem. QS já achava legal e necessário. necessidade de democratização da língua. e não me venham com nivelar por baixo. quando Guimarães Rosa faz um estudo profundo de oralidade e escreve assim é a glória, mas agora quando de fato falam daquele modo é um horror. e o mesmo vale para outros tantos escritores brilhantes.

será que esse negócio de promover a língua culta, erudita, não é também uma espécie de segregacionismo? o importante não é deixar claro aquilo que é pensado? bom, se assim for, o termo presidenta é perfeito, ninguém tem a menor dúvida de qual é a discussão, sobre quem se fala e podemos mesmo saber o posicionamento político do sujeito pelo uso.

mais sobre este tema, com ou sem presidenta no cargo maior do executivo deste país, em breve. o trabalho com QS acaba de se iniciar.

PS: tenho mais meia hora de conversa a partir de um ponto de vista mais fosterwallaciano de linguagem e uso, mas deixemos isso para um próximo momento.

PPS: agora me veio também à cabeça a obra do cummings. tem mais conversa sobre tudo isso aí no horizonte. e o assunto é extenso.

Qorpo Santo (primeiras anotações concretas)

Desde ontem tenho uma sensação forte de que a trilha do espetáculo AMANHÃ SOU OUTRO deve ter forte inspiração oitentista. Acordei pensando na potência da concisão de Please Please Please Let Me Get What I Want, dos Smiths. Acho que tem um caminho aí.

O vídeo em animação 3D começa a ser esboçado. Se eu tivesse que dizer qual é o tema, eu diria colapso social, da forma mais literal possível. Qorpo Santo propõe em sua obra diversas rubricas impossíveis. Com a linguagem do vídeo queremos tornar tudo isso um pouco mais palpável, especialmente no caso da animação, que nos dá ainda mais liberdade.

A peça. O carro chefe do projeto. Sei como ela começa, por quais caminhos deve passar e sei aonde ela acaba. O resto só o processo pode desvendar.

A parte mais intrigante de tudo isso é pensar em como essas coisas que eu sei de maneira intuitiva (e óbvio, com muita pesquisa) dialogam. Eu penso nos ecos de anos 80 para a trilha porque eu imagino isso interagindo com as coisas que já tenho pré-definidas para a encenação. Porque penso nisso interagindo bem com todos os pré-textos base.

E agora, nesta canção específica, eu penso também em como o que a animação diz se traduz para outra potência, sonora. E em como a animação, o princípio narrativo que ali se encontra, está intrinsecamente ligada à obra de QS como um todo. Comecei a amarrar tudo na minha cabeça.

Tenho duas certezas.

O respeito baseado no não-respeito pelos textos originais, encontrar sua potência no agora exige isso. Transpor urgências.

O pop. Estou propondo uma peça de teatro que vai originar sua própria trilha sonora (que seja extremamente pop), que por sua vez vai originar três videoclipes (pop!) que podem complementar os sentidos narrativos da encenação. Com estas duas chaves do pop coloquial ligadas, a peça pode se pretender mais hermética, sem perder seu poder de comunicação com os mais diversos públicos.

A cabeça não pára. Preciso logo da sala de ensaio.

QORPO SANTO – LINGUAGEM VÍDEO

“escuta, eu sei que tem sido difícil, e não tem sido diferente pra mim”.

The Writting’s on the Wall, do OK Go é por si muitas referências em uma. Primeiro, em um projeto que se pretende gravar três videoclipes (dois digitais live action e um em animação 3D) deve-se considerar um dos grupos mais inventivos no quesito vídeo. Segundo que o clipe desta canção especificamente é uma das coisas mais incríveis e divertidas lançadas nos últimos tempos. O diferencial é que, na minha opinião humilde, a qualidade do clipe em nenhum momento ofusca a genialidade da canção, cheia de ecos dos anos 80, mas com um frescor interessante. Vocais referenciais absolutos pra vida toda perdendo apenas pra 500 Miles, do Proclaimers, que aliás são outra grande referência para qualquer coisa que eu faça nesta vida.

A letra é nada espetacular, ao contrário, ligeiramente clichê. Mas eu tenho um certo carinho por clichês, ainda mais quando eles aparecem aos borbotões, como na letra em questão.

Com isso, não digo que faremos algo clichê. Mas também não digo que não. A grandiloquência potente do vídeo é uma busca constante. Para letras, para melodia, pra vídeo e para a peça.

https://www.youtube.com/watch?v=m86ae_e_ptU

Qorpo Santo – Três Linguagens

nosso projeto multi-áreas foi aprovado no Rumos Itaú.
não poderíamos estar mais felizes ou orgulhosos.

nosso projeto abarca a criação de um espetáculo teatral, com temporada em Curitiba e São Paulo. a partir disso desenvolveremos uma trilha sonora, com dez canções, a partir de letras de Qorpo Santo. e dessas canções surgirão videoclipes, amparados pela pesquisa da montagem.

o projeto foi concebido por Nina Rosa Sá, em parceria com Leo Fressato, com a colaboração de Bernardo Rocha e Rosano Mauro Jr.

feliz.

aonde se coloca a ênfase quando tudo é tão enfático?

para ler aos trinta estreia em Curitiba no dia 04 de abril às 19h, no TUC. dentro da programação do Coletivo de Pequenos Conteúdos.

o texto é incrível, denso e poético, cheio de frases de efeito que valem por uma vida e ferram a construção, porque, olha, se tem uma coisa que é tensa é escolher aonde você vai colocar a ênfase quando tudo é enfático.

e a dona do problema é a Lígia Souza Oliveira, que escreveu um negócio ferrado de bom. e na real a dona do problema sou eu, que tenho que me resolver com isso. mas nessa eu não estou sozinha. e como não sou palerma, sei que provavelmente as meninas (Uyara Torrente e Kelly Eshima) vão resolver isso aí bem melhor que eu.

ah, e só pra te falar mais uma coisa importante.
tudo é enfático mas também é completamente lacunar. e eu disse assim eu disse isso é extremamente cheio de buracos que deveriam permanecer buracos, ou seja, bem assim, sem preenchimento. mas aí como você transpõe o vazio sem ficar um negócio chato pra caramba?
aí eu lembrei de A Árvore da Vida e de todos aqueles parêntesis e aí eu disse pra mim mesma que era bem isso.

do que se trata afinal?

O texto de Para Ler aos Trinta é ordenado na forma de diversos ps’s. A personagem escreve para si mesma no passado, como se estas palavras pudessem ser uma máquina do tempo. Como se as palavras pudessem modificar o que já foi. Mais do que isso, estes ps’s, esta pequenas cartas sobre o cotidiano são um testamento dos arrependimentos da personagem que sequer conseguimos apreender direito. De maneira extremamente lacunar o texto se constrói apoiado em pequenos eventos ou tragédias cotidianas que determinaram quem aquela pessoa se tornaria. Mas as lacunas são tantas que não se pode, pelo menos numa fase inicial do processo, determinar em qual tempo acontece a peça. Presente, passado ou futuro. Se a personagem que está sendo retratada é a que lê ou a que escreve a receita para mudar a vida. E há também a questão de se tomar a decisão de deixar ver que quem fala não é apenas a personagem, mas as atrizes que ali, naquele curto espaço de tempo, habitam o texto.

Caminhos de construção desta pessoa, extremamente humana, que fala são muitos. As dicas estão todas espalhadas no conta-gotas de informação. Cada ps uma nova gota num oceano de dicas, vazias ou não. Quem decide todas as implicações e os efeitos? Eu, o texto, você? Não sei. Talvez seja um conjunto. Talvez só assim a peça possa existir, na construção coletiva entre quem faz e quem vê. Não dizia o Edward Bond que o teatro acontece na cabeça do espectador. Pois então. Mas este espectador precisa pelo menos de um norte. Ou não? Nem isso?

Na peça, eu decidi, vai tocar uma porção de canções. E todas elas são só pra te distrair do quanto tudo isso é triste. Mas isso é mentira.